episódio # 38 – expressão (em: filosofias baratas)
isso foi em 16.Oct.07 e 8 comentaram
Os japoneses são fodas né. Dia desses estava casualmente xeretando o fórum dos famosos projects de animes na internet (sites de fansubs venerados por nós, pobres mortais que não entendem japonês). Lá li um tópico que questionava o porque do Naruto falar sempre a palavra “dattebayo” no final de suas frases. Achei estranho não ter notado isso, mas tudo bem pq eu não entendo nada mesmo do que eles falam 
A partir daà os episódios que fui vendo eu percebi que ele fala isso frequentemente, e fiquei curioso pra saber oq era: que palavra a gente poderia estar sempre usando no final de praticamente qualquer frase?! Nunca vi isso. Bem, no próprio tópico de origem não tinha nenhuma resposta séria, e consultando o oráculo Google não estava achando nada que prestasse. Quase desistindo achei, numa das páginas lá da frente, a resposta de um fórum em inglês, do próprio anime Naruto aliás, dando uma explicação muito completa e interessante, intitulada linguagem expressiva.
A parada era grande, mas eu estava curioso. E oq eu li me deixou espantado. A pessoa estava explicando uma divisão toda particular da linguagem japonesa, que trata da expressividade. Na prática, “dattebayo” sozinho não significa nada, essa palavra pertence a um grupo vocabular enfático, que ganha sentido apenas quando ligada a uma frase, mais corretamente falando a um contexto. Oq isso quer dizer?
Bem, esse grupo vocabular carrega sim um sentido em si, mas é mais uma idéia do que um sentido. Isso significa que ao lermos “dattebayo” numa frase escrita por alguém que não conhecemos, esse “dattebayo” pode desempenhar o papel de formar algum tipo de opinião prévia sobre essa pessoa. Vejamos com os próprios exemplos que a pessoa disponibilizou, fica bem fácil de entender:
Imagine que perguntamos para 7 japas hipotéticos “Qual o seu tipo preferido de ramen?”
- japa 1: miso ramen dattebayo
- japa 2: miso ramen
- japa 3: miso ramen da
- japa 4: miso ramen yo
- japa 5: miso ramen desu
- japa 6: miso ramen jan
- japa 7: miso ramen da-kore
Todos os 7 respondem a mesma coisa (miso ramen), havendo apenas variantes no vocábulo final. Pois bem, é esse vocábulo que é capaz de formar uma personalidade toda particular para a pessoa que a diz / escreve, veja só:
- frase 1: “dattebayo” uma vocábulo extremamente determinado, que demonstra uma forte enfatização do seu ponto de vista.
- frase 2: a falta de um vocábulo indica uma resposta simples e rápida, marca maior distância do interlocutor.
- frase 3: “da” é um vocábulo masculino, mostra certa aspereza, desisteresse ou indiferença na comunicação
- frase 4: ao contrário de “da”, “yo” é uma terminação feminina, mais carinhosa.
- frase 5: “desu” é um vocábulo marcado pela formalidade, indica educação e ciência de hierarquia com quem se fala. Aliás, os japoneses usam muito definições frasais marcadas para diferentes tipos de situações hierárquicas, ou seja, coisas que devem ser ditas ou não na frente de certas pessoas. Isso é engraçado também né? Aqui a gente fala da mesma forma com qualquer um, adicionando apenas um pequeno “por favor”, “com licença” ou “obrigado” quando se quer ser mais educado. Lá existem palavras que devem ou não ser ditas dependendo do interlocutor. Meda 
- frase 6: “jan” é mais uma gÃria jovem, usada então para marcar um ar mais descolado da situação. O autor até explica que essa gÃria nasceu em Yokohama, mas hoje esta espalhada por todo o Japão.
- frase 7: um vocábulo bem infatil, usado por crianças.
Deu pra entender como apenas uma palavrinha pode mudar completamente a maneira como eles interpretam você e sua frase? Eu achei isso incrÃvel e assustador ao mesmo tempo.
IncrÃvel pq fala sério, isso é ou não é muito foda? A linguagem japonesa além de ser linda tem essas marcas que mostram toda uma carga visual. Dependendo do seu humor, estado, idade etc vc pode adicionar vocábulos que venham de acordo com seus sentimentos no momento. Isso significa que uma boa frase, escrita ou falada, em japonês não é aquela que carrega todo o rigor do traçado ou da oralidade, mas sim que se adapta com coerência ao contexto, que soa bem, que cria uma boa imagem para quem lê ou ouve. É um estágio avançado demais para a compreensão de nós, reles ocidentais.
Agora assustador pq… isso só comprova que eu nunca serei capaz de aprender japonês 
Bem, tudo isso estava contextualizado com Naruto, seus personagens e panz. Não é de interesse então eu adaptei. Mas o ponto é que… não existe tradução para “dattebayo”, ponto final! Essa explicação toda foi só pra gente entender que porra é essa. O ponto é que não existe essa função expressiva na gramática brasileira, logo não há ponto em traduzir. Oq fazemos é apenas enfatizar através das tonalidades orais por exemplo, mas não usando palavras dessa forma que eles usam. Algumas discussões foram levantadas nesse meio otaku sobre o “dattebayo” com a chagada da versão nacional do mangá de Naruto, que traduziu toscamente “dattebayo” para “se liga!” É ou não é pra se matar? Um dia eu vou pesquisar como os tradutores ganham esse posto, sendo que eles são sempre menos sensÃveis (e inteligentes com sua traduções) que qualquer fã. Deixa pra lá…
O nome é Diego e tem 22 anos. Nascido e criado no Rio de Janeiro, mas atualmente divide um apartamento em Niterói. Não tem feito nada além de cursar o sexto período de Arquitetura & Urbanismo na 

