episódio # 64 – fotologia (em: especiais)

isso foi em 16.Nov.08 e 6 comentaram

Minha nova câmera digital chegou, e eu não poderia estar com mais areia na cueca em relação a isso. Não sei explicar exatamente o porquê, mas de uns meses pra cá eu tenho estado realmente excitado com a possibilidade de subir um degrau a mais e aprender sobre fotografia profissionalmente. Inclusive por que meu campo de atuação (arquitetura) tem uma forte ligação com imagem, isso esta me influenciando a pegar uma eletiva sobre teoria fotográfica semestre que vêm. Acho que é pq eu andei lendo muita coisa sobre, pra me ajudar a escolher uma boa câmera. Meu orçamento não permitia fugir das opções point & shot, as máquinas compactas que todo mundo têm, de uso diário. Mas dentro desse universo já existem muitas variações, e eu estava interessado em achar algo que me permitisse liberdade na manipulação de variáveis ambientais, para quem sabe um dia estar mais preparado para um equipamento semi-profisional.
Acabei optando por uma Canon A590 IS. Esse modelo foi lançado no início desse ano e fecha o arco das câmeras 5X da Canon. Ela chegou há dois dias, mas só acabei de ler o manual agora e mesmo assim ainda não deu pra absorver tudo…
Bem, nesse post eu queria fazer um registro sobre conceitos mecânicos da teoria fotográfica que são importantes de serem levados em conta. Inclusive para organizar meus pensamentos sobre esse assunto.

RESOLUÇÃO: Muito se fala sobre resolução nas máquinas digitais. Infelizmente nem todos sabem que esse é na verdade um dos fatores menos importantes para uma boa máquina.
A resolução nas máquinas é medida em mega-pixels (MP), sendo o pixel a menor unidade de informação de uma imagem digital. Quando se diz que uma máquina tem, por exemplo, 6 mega-pixels, significa que esse equipamento é capaz de gerar imagens digitais com até 6 milhões de pixels em frame (quadro). A pecinha que esta por trás desses números se chama sensor, que na verdade é uma película de material foto-sensível encarregada de separar o espectro de luz recebido em cores. O sensor equivale ao fotograma (filme) das máquinas analógicas.
É verdade que sensores mal produzidos podem entrar em interferência com ação eletromagnética e gerar o famigerado NOISE (ruído), mas isso é somente o caso em máquinas de segunda mão. Quando se tem uma boa máquina e com uma resolução razoável, não é preciso de mais nada nesse campo. Agora… como saber a resolução adequada?
O importante aqui é entender que mega-pixels dizem respeito somente ao tamanho que a imagem vai ganhar no papel. Sabendo disso, é atestado que 3 milhões de pixels (3MP) são mais que suficientes para cobrir uma folha A4 (210×297mm) com boa qualidade (de maneira que o olho humano não sentirá distorções).
A não ser que você queira trabalhar com posters, banners ou algum outro formato de grande escala, uma simples máquina de 3MP (hoje considerado valor pífio) cumpre seu papel. Ponto final.

LENTE: Podemos considerar a lente como a alma da máquina. Na verdade, as máquinas trabalham com um pacote sequencial de lentes (objetiva), que em conjunto, mediante as suas variações de angulo e corte, trabalham para produzir um determinado efeito focal. Em questão de qualidade do material, quanto maior a composição de plástico no estojo focal, maiores serão os erros de leitura no sensor.
Nesse campo existe uma série de conceitos físicos emprestados da ótica que eu vou tentar simplificar. Uma objetiva conta basicamente com dois anéis reguláveis: o de abertura e o de foco. A imagem da cena se forma entre esses dois aparatos, e existe um certo limite dependendo das condições para se combinar as duas variáveis de maneira que a imagem saia focada e com boa iluminação. Portando, cada objetiva vem com um valor nominal, que define quais são as capacidades supridas pelo estojo de lentes ali presente, em questão de foco (ex: Canon 70-300mm)

  • Teoricamente, quanto menor a distância focal maior seu campo de visão com detalhes imprecisos. Quanto maior a distância focal, seu campo de visão diminui, porém a riqueza de detalhes se revela mais intensamente. Para entender tente fazer um circulo com seus dedos e o coloque em diferentes posições na frente do seu olho, aproximando e afastando de uma cena.
  • Tecnicamente, ao se escolher uma cena, o equipamento mede a diagonal da imagem produzida no sensor para saber qual o valor da objetiva (em mm). Lentes registrando valores acima disso são chamadas tele-objetivas, e abaixo disso grande-angular.
  • Logo quanto a classificação das lentes, temos:

  • Normais – captam raios luminosos com angulação próxima do olho humano (45º). São as objetivas de 50 a 90mm;
  • Tele-objetivas – a luz entra na máquina num ângulo mais agudo que o da visão humana (± 15º), o que permite obter uma imagem muito aumentada de uma pequena área, em detrimento do ângulo de visão mais restrito. As teleobjetivas aproximam as cenas (aumentam o tamanho da imagem) e reduzem a quantidade de cena que será incluída no filme, permitindo trabalhos a longas distâncias. A profundidade de campo é bastante reduzida e também é diminuída a sensação de perspectiva entre os planos da cena. São as objetivas de 100 até 2.000mm e acima;
  • Grande-angular – a luz entra na máquina num ângulo mais obtuso que o da visão humana (± 75º). O que permite uma profundidade de campo maior em comparação a uma objetiva normal. As perspectivas mais acentuadas podem inclusive gerar o famoso efeito de “bordas distorcidas”. As objetivas de grande-angular são usadas para se fotografar uma imagem com ângulo grande e na qual não se tem muito espaço físico para trabalhar. São as objetivas de 4 a 40mm.

Nossas máquinas digitais comuns trabalham com as chamadas objetiva-zoom, que, por disporem de elementos óticos móveis entre si, podem simular distâncias focais muito variáveis e trabalhar como normais, tele ou grande-angular. É algo incrivelmente prático visto que você não precisa ficar andando com várias objetivas de um lado para o outro e também não perde oportunidades gastando o tempo de trocá-las no aparelho, podendo pular de uma panorâmica para uma macro-fotografia com apenas alguns cliques.
Porém preste atenção! A objetiva-zoom trabalha com dois valores compostos: analógico e digital. O zoom analógico é o zoom real da máquina, aquele obtido através do movimento mecânico do estojo de lentes. O zoom digital não passa de uma simulação, como o nome diz, digital. A máquina passa a fazer interpolação de pontos, ou seja, começa a fabricar pixels para preencher os buracos da amplicação, e isso deteriora muito a qualidade da imagem. Nunca conte com o zoom digital nas suas fotografias!

ABERTURA (aperture): A abertura em conjunto com a velocidade de obturação (mais a frente) gera o que chamados de nível de exposição da imagem. Isso pq essas são as duas variáveis que mexem com o obturador das máquinas. O obturador é um mecanismo da câmera que abre e fecha, permitindo que a luz alcance o sensor de imagem com maior ou menor nível de exposição (intensidade), nível esse determinado pelo tempo de contato. O obturador pode ser comparado a grosso modo com nossas pupilas, que se abrem (dilatam) e fecham dependendo da quantidade de luz. Bem, felizmente não precisamos determinar o foco de nossos olhos manualmente. Quem tem essa habilidade comprometida acaba tendo de usar óculos não é mesmo? Mas inconscientemente alteramos a abertura da pupila quando registramos dor por excesso de luz. Cada um tem uma certa resistência a luminosidade, mas essa faixa não varia muito.
Ainda continuando no campo comparativo olho – obturador. Se colocarmos um objeto próximo a nossa frente, e dilatarmos o olho, as informações ao redor e com mais distância perdem a precisão, e tendemos a ver com mais detalhes o que se encontra centrado no nosso campo de visão. Por outro lado, se apertamos o olho, tendemos a capturar um número maior de informações ao longo de todo o campo visual, e a referência de centralidade se perde. O obturador das máquinas funciona exatamente da mesma forma.
Quanto mais fechado o diafragma do obturador, maior a sensação de profundidade produzida, pois elementos em diferentes distâncias tendem a estar com exposição de luz parecida.
Quanto mais aberto o diafragma do obturador, menor a sensação de profundidade produzida, pois apenas os raios luminosos vindos na direção de um elemento e uma distância são priorizados pela máquina. O resto da cena parece desfocado e com menor importância. Essa é a técnica utilizada nas macro-fotografias.
A abertura é medida por uma fração focal (ex: f/2.8 ou 1:2.8), e quanto menor o valor numérico maior a capacidade de abertura da máquina para captação de luz

VELOCIDADE DO OBTURADOR (shutter speed): Essa é uma variável bem fácil de entender. É a velocidade que o diafragma permaneceu aberto, permitindo o contato da luz com o sensor da máquina. Trocando em miúdos: é quantidade de luz registrada pela máquina por segundo. Logicamente, medimos o “shutter speed” em segundos, ou mais comumente em fração de segundos.
Mas o que isso altera minha fotografia? Altera bastante! Manipulando essa variável nós podemos criar a famosa sensação de movimento. Quando os borrões provocados na luz pelo movimento são registrados lentamente pela máquina, o resultado é uma sensação de continuidade do registro. Porém quanto menor o tempo de exposição, mais se consegue capturar o movimento e separá-lo.
Esse GIF colocado na Wikipédia é perfeito para ilustrar. Em 1/800 segundos podemos ver praticamente cada gota de água se espatifando na pedra, pois o tempo de contato do sensor com a luz foi muito pequeno. Já quando o diafragma ficou aberto durante 1 segundo (o que é muito tempo), podemos praticamente sentir a água fluindo. Efeitos muito interessantes também podem ser obtidos com longa exposição em fogos de artifício ou tráfego de carros.

ISO: O ISO é uma medida de sensibilidade, que indica o quão sensível o sensor esta em relação a luz. Podemos compará-lo a ASA dos fotogramas. Cada filme fotográfico vem com uma opacidade que não é passível de mudança, então você compra um filme com, por exemplo, ASA 100, e torce para que todas as suas fotos saiam com boa qualidade. Felizmente o sensor das máquinas digitais é uma peça extremamente maleável, e podemos simular diferentes ISO num mesmo equipamento. Em ambientes com pouca iluminação (fotos noturnas ou ambientes fechados) você pode “forçar” o sensor da sua máquina a captar luz aumentando sua sensibilidade (usando um valor ISO maior) ao custo de perda de qualidade. Por outro lado, em ambientes extremamente iluminados (praia, por do sol, etc), pode ser interessante tornar o valor ISO o mais restrito possível para “forçar” a máquina a rejeitar excesso de luz e assim não “queimar” a foto.
É obvio que numa situação noturna pode-se muito bem utilizar o flash. Mas também é sabido que o flash deteriora bastante as informações originais de cor e contraste. Logo, para evita-lo, podemos tentar ajustar o ISO para continuar tendo uma foto legitimamente noturna. O problema é que, como eu disse, quanto maior o valor menor a qualidade, devido ao surgimento do famoso NOISE (granulado ou ruído).
Tem-se como padrão o ISO 100 para situações normais de dia, porém existe o ISO 50 para ainda maior qualidade. Para fotos noturnas temos do ISO 800 ao 1600 e até acima disso.

MODOS DE CENA: Eu sei que isso não tem haver com as variáveis mecânicas da lista que estava falando acima, mas mesmo assim queria fazer um comentário. Os modos de cena existem apenas para que nós, leigos, possamos tirar fotos com o mínimo de decência. Na verdade eles ajudam muito os profissionais também pois economizam tempo operando a máquina. Mas os mais puristas gostam mesmo é de controlar todas as variáveis manualmente.
Os modos de cena nada mais são do que uma composição variada de tudo isso que eu falei ai acima para se obter qualidade num certo tipo de situação. O exemplo mais comum são os modos antagônicos “paisagem x retrato”. No modo “retrato” você tem prioritariamente menor abertura, para focar apenas no rosto da pessoa. Já no modo “paisagem” o que se deseja é aumentar a exposição para se ter uma noção aprofundada de tudo ao redor. A partir daí se criam as mais variadas situações. O modo chamado “crianças” ou “animais” trabalham com rápida velocidade do diafragma para que esses objetos em movimento não saiam borrados. O modo noturno trabalha com o menor ISO possível e, principalmente, o “manual” (mais usado dos modos de cena) calcula uma composição média de necessidades dentro das condições normais do ambiente.
Enfim… os fabricantes começaram até a extrapolar criando modos de necessidade duvidosa como “folhagem” “neve” ou “aquário” (este último para se tirar fotos através de vidro evitando reflexão).

Espero que as explicações não tenham ficado muito confusas! E que esse post possa ajudar pessoas como eu que estão começando a tomar gosto pelo mundo da fotografia, ou até mesmo inspirar a você que não tinha se ligado ainda no potencial da sua máquina digital

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autor & obra

O nome é Diego e tem 22 anos. Nascido e criado no Rio de Janeiro, mas atualmente divide um apartamento em Niterói. Não tem feito nada além de cursar o sexto período de Arquitetura & Urbanismo na UFF. Estuda japonês e pratica natação quando pode. Fotografia e partidas de Poker nos tempos vagos. Indeciso, preguiçoso e de opiniões volúveis.

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